"Quem sabe no futuro"... pensava ele. Tudo na vida das pessoas que já se habituaram em viver no stress diário de uma grande cidade, onde o consumismo material é ininterrupto, é deixado para o futuro.
Ocupando cargo de executivo comercial de uma rede de Shoppings Centers, casado... percebe que sua vida que sempre sonhou não era aquela que estava vivendo. Ele tinha guardado no armário da sua memória o seu sonho da juventude.
Raphael Karan (48 anos - foto ao lado) teve uma atitude diferente; fez do seu sonho de adolescente seu novo objetivo de vida. Queria vivenciar o mundo, ter uma enxurrada de experiências culturais, espirituais, sociais e geográficas. E o realizou.
Raphael cruzou de moto absolutamente todos os continentes do planeta, percorrendo quase 1/3 dos países existentes (segundo a ONU são 192 países) e esse motociclista rodou por 54. Realizou a viagem pelo mundo, em etapas, durante os anos de 2000 até 2008, com uma determinação incrível.
As grandezas das viagens do Raphael são tantas que é impossível resumi-las em uma única matéria. Aliás, vale ressaltar, que Raphael foi tema de inúmeras reportagens em diversas edições das Revistas impressas Moto Adventure e Motociclismo Magazine. Rock Riders ainda fará muitas outras matérias com esse motociclista, essa é a primeira.
“Não existe caminho para felicidade, a felicidade é o caminho. Ela não é um destino, é uma viagem” é o que acredita o paulistano Raphael Karan, 48 anos, que em 8 anos percorreu o mundo sozinho em sua moto. O administrador de empresas deixou o emprego, a família, os amigos e a vida confortável para realizar o Projeto Cinco Continentes. Percorreu 164 mil quilômetros e também rodou a maior parte do território nacional no Projeto chamado Solidário, dando palestras e arrecadando alimentos para instituições assistenciais.
A entrevista foi realizada na loja Moto Atacama, especializada em artigos e produtos para motociclistas que viajam de moto, localizada no centro da capital paulista, na tarde de uma quarta-feira.
Ao lado, da esquerda para direita, Ricardo (motociclista proprietário da Loja Moto Atacama) e Raphael Karan.
Conheça um pouco mais sobre Raphael Karan e entenda porque para ele agora o mundo é pequeno...
Rock Riders - Como foi que surgiu essa sua idéia de viajar de moto pelo mundo e como foi seu planejamento para realizá-la?
Raphael - Quando eu era adolescente, no começo dos anos 80, eu li a história de um colombiano, que deixou tudo para trás e fez uma viagem ao mundo de moto, 11 anos depois voltando para seu país. Isso nunca mais saiu da minha cabeça.
Acredito que a coragem não é a de cruzar países, é ter a atitude de romper com tudo aquilo que você construiu e seguir adiante. Quando mudamos para um outro país, temos atitude semelhante. É ai que as pessoas tem medo e deixam seus sonhos nas prateleiras. Quando você tem a certeza que seu sonho é maior que suas conquistas atuais e você toma a decisão de seguir em frente, você deixa um peso para trás. Começa uma vida nova.
Quando comecei a planejar minhas viagens, utilizei um livro que continha um Atlas Mundial, a Internet em 2000 não era habitual como hoje. Um livro que chama muito atenção em ir atrás de nossos sonhos é "O Alquimista", do Paulo Coelho. Onde temos aquela história do pastor que para viajar tinha que vender suas ovelhas. É fácil viajar com dinheiro no bolso e quando voltar ter a sua vida de volta. Outra coisa é romper com sua vida, viajar e depois ter uma vida nova.
Fui atrás de patrocínios e colaboradores (o que não foi nada fácil), dividi a viagem em 5 etapas, cada qual para um continente, levando-se em consideração que a América do Sul, Central e do Norte, é por muitos considerado um só continente e parti para a realização do meu sonho. A idéia era percorrer o mundo de uma vez só, mas eu não consegui patrocínio para isso. Uma empresa patrocinadora quer retorno de mídia do seu patrocinado, a exposição da marca é muito importante. Eu não conseguiria fazer isso competentemente ficando tanto tempo longe do Brasil. Fiquei dedicado integralmente às viagens entre os anos de 2000 e 2008.
O que mudou no Raphael Karan após suas viagens de moto pelo mundo?
Hoje eu sou uma pessoa que dou valor a coisas que eu não dava antes e coisas que eu atribuia valor antigamente, hoje não tem mais valor para mim. Meus conceitos e valores sobre e com a vida mudaram. Eu não quero mais ter riquezas materiais como queria antigamente, claro, dinheiro é importante, como qualquer outro ser humano tenho contas à pagar, mas deixou de ser foco da minha vida há muito tempo.
Você andou por 5 continentes – América, Europa, Ásia, Oceania e África. Quais são os números?
Foram oito meses na América, 28 mil quilômetros; três meses na Europa, 12 mil quilômetros; 14 meses na Ásia, 35 mil quilômetros, 12 meses na Oceania, 22 mil quilômetros e África 14 mil em 5 meses. No “Projeto Brasil Solidário” foram 15 meses e 35 mil rodados, além de uma recente viagem de quatro meses pela América Latina, onde rodei 18 mil quilômetros.
Você visitou 54 países em 5 continentes. Qual o povo mais hospitaleiro?
Por incrível que possa parecer, é o iraniano! A hospitalidade corre nas veias deste povo. Creio que a razão para isso seja a ainda pequena quantidade de turistas que para lá se dirigem, fazendo com que, os poucos que se aventuram, sejam bem recebidos. Outro motivo é que, sendo uma Republica Islâmica, seguem o Corão (livro sagrado dos muçulmanos) e segundo ele, todo viajante é considerado um hóspede. Eu parava para pedir alguma informação e pessoas me ofereciam para comer, para visitar suas casas e pernoitar.
Você sentiu insegurança em algum país especificamente? Como tratou da questão do medo?
Eu tenho medo sim, de muitas coisas, não sou super herói. Me considero um sujeito sensível. Se eu fosse mais durão, me daria melhor nessas estradas do mundo. Mas tem um outro lado. Essa sensibilidade me permite ter um contato muito proveitoso com os habitantes locais e com isso, acabo por aprender muito.
Na barraca à noite, sofri uma tentativa de assalto. Em fronteiras, quando os policiais discutiam comigo, como os russos que me deixaram preso quando me dirigia a Ucrânia. Na Síria fiquei oito horas argumentando com os policias aduaneiros que não me deixaram entrar naquele país, fazendo com que eu tivesse que retornar 800 quilômetros para trás, até a capital Turca para tirar o visto do Irã, na África onde contrai duas malárias, tifóide e desidratação e o medo constante de não poder continuar a viagem por algum motivo, foram exemplos temerosos que tive de conviver.
Já me perguntaram se eu não tenho medo de viajar de moto sozinho - “E se a moto quebra, você fica a pé”. Conheci um inglês de 25 anos que viajava a pé cruzando paises, puxando seu trailler com rodas de bicicleta. Havia saído de Punta Arenas no Chile e quando o conheci na estrada, um ano e meio depois de sua partida, já estávamos próximos de Lima no Peru. A pé!!! Meu pai me ensinou que o problema do ser humano não é ter medo. Medo todos nós temos, de uma coisa ou outra. O problema é quando o medo nos impede de fazer algo que queremos.
Você já sofreu algum acidente de moto?
Não, e não é por que eu seja um exímio piloto, pois não o sou.
As duas maiores virtudes de um viajante motociclista, são a prudência e a paciência. O motociclista tem que ter a percepção antecipada do que vai acontecer a sua frente e ter muita cautela, porque para morrer, basta estar vivo. Os números são alarmantes e todos sabem que morre um ou mais motociclistas a cada dia numa cidade como São Paulo. Capacete sempre bem afivelado na jugular, (capacete mal afivelado funciona tanto quanto chapéu de palha), laço do cadarço da bota sempre curto, para não enganchar nos pedais de câmbio e freio, casaco apropriado, luvas, etc. Parecem a primeira vista, muito chato de se usar, porém uma cama de hospital é muito mais chata. Só entendemos a necessidade destes equipamentos quando eles nos salvam a vida. Há de se observar que a velocidade é a maior vilã dos acidentes. Então, para que possamos continuar vivos, em pé e respirando, acelerar forte, só onde é compatível e com as circunstâncias favoráveis.
Você conseguiu identificar em que lugares ou países o povo é mais ou menos feliz?
Olha só que interessante. No Laos, por exemplo, um país extremamente pobre, muitas pessoas morando em choupanas, mas com sorriso na cara. Eu, com os meus olhos ocidentais, não consegui entender. Dizia: Como esse sujeito que sai de manhã para pescar o almoço e à tarde para pescar a janta, está aí sorrindo, feliz da vida?
Na Índia, o Bagavad Gita, livro sagrado dos Indus, prega a “ausência de desejo” como caminho da felicidade. Parece algo completamente sem sentido para nós que vivemos em busca de conquistas. Acredito que a felicidade não está diretamente ligada ao acúmulo de bens, mas sim a realização de nossos sonhos. Acredito que, se nós tivermos dinheiro suficiente para que possamos realizá-los, a probabilidade de sermos felizes é bem maior, ao invés de termos uma polpuda conta bancaria e passarmos a vida tomando conta dela.
Tem muita gente viajando pelo mundo?
Tem muita gente na estrada, viajando pelos mais diferentes motivos, por turismo, prazer, objetivo de vida. Uma destas “tribos” é a de viajantes que vão conhecer o mundo montados em seus próprios veículos. Existem rotas que ligam a Europa à Ásia ou África. Vi até ônibus que saem de Londres com destino à costa Leste da Índia, cruzando inúmeros países. Como nós brasileiros estamos acostumados a seguir o caminho dos Andes, Patagônia, Pan americana etc., Norte americanos aos montes, cruzam o Canadá e vão até o Alasca. Na grande maioria são pessoas despojadas, que trocam informações, que estão em busca de companheirismo e entendem que essa forma de viajar é a melhor maneira de conhecer culturas e povos.
Nos conte alguma situação inusitada durante a viagem?
No dia 11 de setembro de 2001, quando ocorreu os atentados terroristas nos Estados Unidos, eu estava cruzando o Afeganistão. Mas como fiquei uns dias sem usar a Internet ou assistir a TV, só fiquei sabendo do ocorrido três dias depois, onde li uns e-mails de familiares desesperados pedindo para eu sair do Afeganistão e região!
Outra situação diferente, foi quando estava em Teerã no Irã e não achando um lugar para montar a barraca acabei indo para um hotelzinho. No quarto, aproveitando a situação convenci (através de mímica) a camareira a lavar minha roupa que estava muito suja. Quando ela entendeu e concordamos com o preço, entreguei a ela o saco plástico com as roupas, mas vi que a camiseta que estava usando também estava suja. Tirei a camiseta para entregar, mas antes que pudesse dar a ela, a mulher saiu em disparada...neste país é proibido ficar sem camisa em publico, muito menos em frente de uma mulher. Lá fiquei eu com toda roupa suja.
Noutra ocasião, na Malásia, que também é um país muçulmano, fui convidado a jantar na casa de um homem. Como de costume, aceitei.
Chegando lá, me apresentou sua mulher, seus filhos e uma senhora que estava ao fogão. Sentamos todos à mesa e me serviram um espetinho de carne com uns pelinhos, que até hoje não sei o que comi. Tentando puxar conversa, perguntei à senhora sentada a minha frente: Que bonita sua família, seus netos... – Não são meus netos, esse e esse são meus filhos, eu sou a primeira esposa e ela é a segunda! O sujeito tinha duas mulheres, sendo que poderia ter até quatro segundo a lei. E eu a chamando de Vovó!
Quais são os planos para o futuro?
Idealizei a Raphael Karan Moto Turismo e hoje me dedico a levar clientes a viajar comigo de moto, com conforto e segurança. Também dou palestras e assessoria à aqueles que queiram viajar de moto ao exterior.
Do que se trata sua palestra?
O tema principal é a realização de sonhos, procurando mostrar a viagem de volta ao mundo como exemplo. Falo sobre objetivo, decisão, renúncia, planejamento, perseverança, imprevistos, criatividade, limites e resultado. Uso um extenso material fotográfico, ensino como se defender de ursos e até danço a Haka, uma dança de guerra. (risos).
Entrevista publicada em 06.04.2009
Entrevista por Policarpo Jr
Fotos fornecidas pelo próprio entrevistado.
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